Destaque na vitória alvinegra sobre o São Paulo por 4 a 2, ontem no Engenhão, o argentino Herrera, autor de três gols, foi muito comentado nas redes sociais (Orkut, Facebook e Twitter). Mas o curioso é que a sua tarde de artilheiro não foi o motivo e, sim, o fato de recusar pedir música no quadro
Artilheiro Musical, do Fantástico, na TV Globo. Rapidamente, o argentino ganhou apoio da torcida do Botafogo de outros times contra o que muitos chamam de
mongolização do futebol.
Aprovei a atitude de Herrera, pois ele é jogador de futebol e sua função é fazer gols.
Reproduzo crônica do
Márvio dos Anjos, postado no portal Globoesporte.com, com análise perfeita dessa "polêmica":
Herrera conforme a música
No filme “Gladiador”, de Ridley Scott, o ex-general Maximus (Russell
Crowe) torna-se um ídolo do coliseu quando vence um combate e desobedece
em seguida o imperador Commodus (Joaquin Phoenix). Virado para baixo, o
polegar imperial manda o gladiador matar o oponente indefeso. No
entanto, Maximus ignora a ordem e joga a machadinha para longe. Ao
poupar o rival e desprezar o rei, é ovacionado pela massa.
O argentino Herrera não é o típico atacante letal, nem mesmo é ídolo
entre os botafoguenses. Mas na primeira rodada do Brasileiro, marcou
três gols contra o São Paulo. Atuação de gala, tendo jogado só no
segundo tempo. Era o dono da tarde.
E aí, a primeiríssima pergunta que ouviu foi:
“Tem música para pedir?”
Preferiu não pedir, e foi o primeiro da História a recusar.
Nesse exato momento, Herrera chegou o mais perto que já pôde da
idolatria alvinegra, justamente porque se negou a seguir o “polegar” do
programa. Não quis fazer parte de um quadro do Fantástico, da emissora
que já o incluiu em outro “quadro” de seus shows esportivos: o
Inacreditável Futebol Clube, do Globo Esporte.
No IFC, você sabe: todo jogador que perde um gol imperdível sabe que será usado para fazer rir.
Não dá para dizer que Herrera quis se vingar do Fantástico, da Globo,
do Marcelo de Lima Henrique, do Vitória, da bandeirinha, ou de Caio
Júnior, ainda que o botafoguense sinta um desafogo disso tudo. Mas nos
faz refletir sobre 1) os atacantes argentinos e 2) os brasileiros que
somos.
(Vou precisar tomar algum tempo seu. Mas, se estiver com muita pressa ou tiver DDA, desça logo o texto para as CONSIDERAÇÕES FINAIS para saber o que acho disso tudo)
O ATACANTE ARGENTINO
Para os
hermanos, o futebol não é primo do samba, e gols não
se comemoram com dancinhas frequentes. Os artilheiros argentinos
parecem se vingar ou se libertar quando fazem gols. São sérios. Doval,
Mario Kempes, Maradona, Batistuta, Crespo, Messi: escolha o argentino
que quiser e procure no YouTube.
Se fazer um gol é como transar com uma mulher bonita, correr para a torcida é que nem contar para a galera.
Mas repare que, enquanto o atacante brasileiro parece tirar onda sobre
seu próprio show, o argentino vibra como quem teve o momento mais
fantástico de sua vida.
Tudo isso aconteceu 3 vezes, no mesmo tempo, com Herrera. Isso mexeu como ele.
O MITO DO ATACANTE CORDIAL
O IFC já fora criticado por Loco Abreu, que certa vez perdeu um gol
feito num jogo em que já havia feito dois. Convidado a rir de si mesmo –
o IFC nada mais é do que isso – , o uruguaio afirmou que o IFC é “uma
bobagem feita para sacanear jogador” – o que tampouco deixa de ser
verdade.
Tudo depende do seu humor, ou de que lado se está da piada.
Abreu e Herrera não são brasileiros. São platinos, como o argentino
Barcos, do Palmeiras, que já protestou sobre as brincadeiras sobre sua
aparência física. Trabalham no Brasil, mas são de natureza diferente,
educação diferente e vivem uma relação diferente com o futebol. Não têm a
enorme necessidade de serem cordiais quando se lhes propõem algo que
não querem.
Talvez jamais comemorem como nós, talvez jamais riam dos programas que nos fazem rir.
É ótimo ter vozes dissonantes no show. O atacante brasileiro não é
educado para ser ídolo que expressa o que pensa. Na maioria das vezes,
decora uma dúzia de frases e faz análise combinatória delas a fim de
evitar problemas com o técnico, com a torcida, com os rivais, com a
imprensa, com o árbitro. Raros são diferentes.
O brasileiro é cordial, escreveu o sociólogo Sérgio Buarque de
Hollanda na obra “Raízes do Brasil”. Muito grosso modo, significa que o
brasileiro vai aos limites da diplomacia para evitar conflitos – até
mesmo os necessários. Com isso, manter a “paz” é mais importante do que
manter a ordem. Argentinos e uruguaios não compartilham desse traço.
E evitam o que aconteceu com Deivid, do Flamengo.
Em 2011, ele fugiu do IFC. Mas não foi às câmeras para dizer que não
queria brincar nem engrossou, correndo o risco de se indispor. Apenas
fingiu não ouvir até que a maré virasse ao seu favor. Era um instinto de
sobrevivência não verbalizado de um jogador que, por ser do clube de
maior torcida do país, é mais transmitido que os demais. A consequência
disso é que seus gols perdidos são mais vistos, mais zoados (na TV e na
internet) e até “mais perdidos” que os da maioria.
Todos perdem gols, mas só Deivid virou sinônimo.
Assim, o titular de dois esquadrões campeões brasileiros
(Cruzeiro-2003 e Santos-2004) virou o parâmetro para a furada fenomenal.
Folclorizado, primeiro porque abusou do direito de desperdiçar lances,
mas, segundo, porque foi cordial, do jeito que gostamos.
AS CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pessoalmente, gosto mais do Inacreditável Futebol Clube do que do
lance de pedir música. As pedidas dos jogadores não me agradam nem me
surpreendem: pagode mauriçola, gospel meloso, sertanejo funkeado. Por
outro lado, o IFC me faz rir de desgraças dos times dos outros (algo
que, no futebol, realmente comove muito pouco), e eu simpatizo com quem
joga no meu time e admite erros.
O barato do IFC é equilibrar com bom humor uma balança que só
derrubava defensores. Frangueiros e zagueiros furões sabem que seus
erros serão reprisados sem escapatória no show da rodada – porque
resultam em gols. O IFC leva os atacantes para o mesmo cadafalso: iguala
o gol perdido ao frango no espetáculo da tragédia alheia.
Enfim, rir de seus próprios problemas é um traço elogiável, mas se
compreende que nem todo mundo tope, muito menos quando o erro decisivo
ocorre na frente de milhares no estádio e de milhões na TV. O atacante,
platino ou não, tem todo o direito de não querer brincar. Só resta aos
repórteres que pedem música o desejo de boa sorte.
Se tudo der errado, o jeito é rirem – também – de si mesmos.